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Criamos um e-mail para nossa filha de 1 ano

Por Rodrigo Cambiaghi

Tempo atrás meu amigo de infância que tem uma memória implacável me lembrou como foi o dia que a gente se conheceu, aos sete anos de idade. Eu havia esquecido completamente dessa cena, mas à medida que ele foi relembrando nos mínimos detalhes o que nós e nossos pais conversamos, o que estávamos fazendo e quais foram as nossas reações, eu comecei a recriar a cena inteira na memória.

Lembrei que era um fim de tarde de um dia um pouco nublado, do som dos cachorros da casa dele latindo, do cheiro da maresia do Guarujá e da terra batida do asfalto. Lembrei que estava um pouco emburrado porque meu pai não deixou eu levar o videogame para a viagem e que sentia saudades da minha mãe.

A cada detalhe que ele contava, mais nítida e viva ficava a cena em minha memória. Foi como uma mini viagem no tempo para a nossa infância por alguns segundos e foi legal demais.

Quando a Clara nasceu, me vi registrando cada pedacinho e momento juntos na esperança de que a gente conseguisse, mais pra frente, saborear essas lembranças do mesmo jeito que fiz com meu amigo.

Foi aí que minha esposa, Nathalia, teve a ideia de criar um e-mail para a Clara. Desde o nascimento ela já vinha anotando num bloco de notas no celular todas as gracinhas, novidades e coisinhas da rotina que aconteciam com a nossa filha. Mas quando percebeu que provavelmente isso iria se perder em algum momento e que haveria grandes chances da nossa filha nunca chegar a saber disso, soubemos que queríamos algo mais concreto, definitivo.

Um blog poderia ser muito expositivo para falarmos dos nossos sentimentos e intimidades com ela, então a ideia genial da Nat foi criar uma simples conta de e-mail. Assim, poderíamos compartilhar aos pouquinhos desde levianidades como vídeos, fotos e besteiras como “hoje nasceu seu primeiro dente” e “hoje você falou papai” até textões nos quais abrimos o nosso coração para ela.

Se já é legal rever um álbum antigo com 24 fotos, imagina ter um baú virtual gigantesco de memórias da sua infância na caixa de entrada do seu e-mail? Espero que ela goste, e eu vou certamente pirar – e passar um pouco de vergonha também – quando reler o que escrevi daqui a 10, 20 ou 30 anos.

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Só torço para que o Gmail ainda exista até lá.

Sei que pra muita gente pode não ser tão fácil soltar os dedos sobre um teclado pra falar sobre sentimento. A gente tem mil travas, mas escrever sobre elas pra quem a gente mais ama pode ser um exercício de paternidade bem sensível, que deixa a gente bem mais livre pra dizer aos nossos filhos que eles são amados.

Pra inspirar quem tá a fim de começar um projeto desses mas não sabe muito como, deixo aqui o meu primeiro e-mail à Clara.

“Oi filha,

Demorei para te escrever desde que sua mãe criou esse email.

Mas eu sou meio assim, um pouco mais fechado e com dificuldade de falar sobre meus sentimentos.

Não sei com que idade você estará quando ler esse primeiro email, então, se você não entender alguma coisa, me chame para lermos juntos e eu te explicar.

Semana passada escrevi um texto falando sobre como foi ser pai, dos primeiros dias que a sua mãe ficou grávida até o seu aniversário de um ano. Mais de 25 mil pessoas leram e gostaram bastante, para você ter uma ideia, 25 mil pessoas da para encher metade de um estádio de futebol. É bastante gente!

Hoje fomos passear pelo bairro de manhã, apesar do sol, está muito frio em São Paulo, você foi dentro de uma bolsa de carregar nenêm, encaixada na minha barriga, ficamos bem quentinhos juntos e você dormiu depois de 5 minutos. Enquanto passeávamos, sua mãe ficou em casa arrumando as malas para ir para Santo André na casa da sua vó Fátima, sua bisavó Maria não estava muito bem de saúde e sua mãe queria ir visita-la no hospital.

Pode ser que quando você estiver lendo esse email sua bisavó Maria não esteja mais viva, mas saiba que vocês se conheceram e brincaram juntas já! Temos até foto para provar.

Almoçamos na casa da sua avó Tsunae

Hoje você tem 1 ano e 15 dias e pesa mais ou menos 10kg.

Você está quase andando, consegue andar super bem de mãos dadas mas tem medo de andar sozinha por conta de alguns tombos que tomou.

Você já fala mamãe, mamá, papai, painho, vovó, vovô, miau, nham nham (para dizer que está com fome), não (você diz “nari nari nari” e balança os dedinhos) e mais algumas coisinhas.

Você entende quase tudo que falamos e consegue identificar animais e objetos.

Você come de tudo, frutas, carnes, legumes, cereais, mas suas comidas favoritas são melancia e ovo. E modéstia à parte, o pai sabe fazer um ovo mexido delicioso.

Aqui abaixo é o texto que o pai escreveu, espero que você goste! Eu fiquei tao feliz com o resultado desse texto que estou pensando em escrever a cada 15 dias sobre minha experiência de ser pai. Será que vai dar certo? Espero poder ajudar mais homens a entender sobre a paternidade.

Um beijo do seu pai que te ama”

Por Rodrigo Cambiaghi, Gerente de atendimento do PapodeHomem, resolve problemas e acalma pessoas surtadas. Se acha diferente por não acompanhar futebol e gostar mais de mostarda do que de ketchup, é apaixonado por comida latino-americana e ceviche. Para mais informações consulte seu terapeuta.

Maternidade e amizades: o que mudou

A maternidade te afasta de um monte de gente e te aproxima de outras tantas.

Já havia percebido isso, mas parei pra pensar MESMO quando tive de fazer a lista de convidados do primeiro ano da Clara (sim, já aconteceu!).

Temos uma família numerosa e muitos amigos, e para conseguirmos fazer uma festinha honesta (oi crise!), rolou uma pré-seleção básica: convidei pessoas que fazem parte da vida dela e que a conhecem! Que foram ao menos visitá-la alguma vez na vida (fui boazinha, vai?).

Olha só, alguns amigos que em um ano não tiveram tempo ou disposição para conhecê-la. Chamei? Não. Fiz isso por rancor? Não. Continuam meus amigos? Da minha parte sim.

Se eu me casasse, por exemplo, com certeza os chamaria. Eles fizeram parte da minha vida, passamos momentos juntos, muitos importantes, mas porque convidá-los pro aniversário de alguém que eles só conhecem por foto?

Fui polêmica? Não sei, ainda não cheguei à uma conclusão. Só espero sinceramente que respeitem e entendam minha decisão.

Quando a gente pari a sensibilidade aumenta e claro que queremos afeto. Queremos que gostem, liguem, se preocupem com a nossa cria.

Em contraponto chamei pessoas que falo diariamente e não são amigos de longa data. São meninas de grupos de maternidade que me identifico e troco figurinhas.

Muitas delas sabem mais do meu momento atual, se a Clara teve febre ou tá num salto de desenvolvimento e dormiu mal à noite, que minhas amigas da vida.

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Nesses grupos consigo expor minhas frustrações, inseguranças e opiniões. A forma que maternamos nos aproxima: são dias e noites trocando informações e desabafos sobre amamentação prolongada, cama compartilhada, livre demanda, criação com apego, antroposofia, BLW, relacionamento…

Sim, a Clara tem um ano, ela “ainda” mama, não chupa chupeta, não toma mamadeira e dorme na minha cama.

Para muitos amigos tudo isso acima indica que eu virei ativista ou que sou radical. Pra mim, estou apenas seguindo meu coração.

Se o seu filho vai nascer de cesária eletiva, tomar NAN ou chorar no berço até aprender a dormir sozinho, a decisão é sua e o problema também. Não vou opinar em nada, ao menos que você me pergunte.

Sinto que muitos se afastaram por achar que eu não vou concordar com alguma decisão e que vou julgá-los. De forma alguma. Na maternidade não há certo ou errado. Afinal, cada um sabe onde o calo aperta.

Eu mesma sei que seria muito mais “livre”, descansada e independente se ela não mamasse mais no peito, por exemplo. Mas eu escolhi dessa forma, tô bancando e enfim, às vezes reclamo buscando empatia, mas não curto que metam o bedelho então fico na minha.

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Amamentação e suas peculiaridades

Amamentar é difícil. Amamentar dói. Amamentar cansa. Amamentar é entrega. Para amamentar é preciso informação e apoio. Muito apoio. Uma rede de apoio: família, companheiro (quem tem), consultora em aleitamento, pediatra que apóie a Livre Demanda (LD).

Por isso muita gente desiste. Eu não. Estou aqui, inclusive com o tetê de fora agora, e com meu “piercing de peito” pendurado. <3

Mas o caminho é árduo e são muitos tapas na cara que a gente leva. Me preparei tanto para o parto e “ah, deixa a amamentação pra depois, deve ser fácil”, afinal é o que mostram os cartazes e campanhas pró-amamentação por aí. As mulheres não estão sempre sorrindo e calmas e felizes neles?

Pois é. Vou te contar que além de tudo isso cada bebê é de um jeito. Uns mamam que é uma maravilha, outros não. A Clara é um deles.

No começo ela mamava mal, e pouco e dormia. Não ganhava peso. Fizemos relactação. Depois que isso melhorou ela começou a mamar agitadamente. Não, não é refluxo. Não é APLV. Não é cólica. É ela.

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Ela é agitada. É um bebê ansioso (lembra aquele história que passamos tudo para o feto durante a gestação?). Ela mama se contorcendo, mexendo as mãos e pés, falando (?), gritando.

Os bebês não são iguais. Alguns fazem mamadas efetivas e em 5 minutos tá tudo resolvido.

Com ela não. Não posso falar, ou mexer no celular e ela prefere que a gente esteja deitada, em silêncio no quarto. Só eu e ela.

Além disso, percebi que ela arrota no meio e no fim da mamada. É mais ou menos assim: começa a mamar, 5 minutos, tiro do peito, ela arrota, volta pro peito, termina o peito. Muda de peito e o mesmo ciclo se repete.

Peculiar demais. E como descobri? Com tentativas, erros e acertos, com a convivência. 24 horas. Nas madrugadas insones, nos dias nublados, no dias cheios de Sol. Nos ataques de choro e irritação. Nas manhãs deliciosas regadas a sorrisos. Eu e ela.

E o seu bebê? Qual é o comportamento dele durante a mamada? O site WomansLounge listou 5 tipos. Vale a pena dar uma espiada aqui!

Clara #4meses

Mais um mês que passou voando… Por mais que eu tente registrar tudo, no coração, na memória e em fotos e vídeos, o dia a dia é tão insano que a gente esquece das coisas que acontecem.

Sozinha com a Clara eu fico enlouquecida (parece até que nesse mês regredimos nesse sentido, ou talvez seja o cansaço acumulado!), porque ela demanda atenção o tempo todo e ainda não se entretem por mais de 5 minutos com alguma coisa. Outro dia mesmo coloquei ela no carrinho dentro do banheiro pra eu tomar um banho, mas depois de um tempinho ela começou a berrar e como odeio vê-la chorando acabei saindo com a cabeça sem enxaguar mesmo. Tenso!

Sendo assim eu peço ajuda mesmo! Tonemaí. Não me sinto “menas” por isso. Meus pais têm disponibilidade pra ficar com ela e adoram. Então eu aproveito! Quando eles me ajudam eu tenho tempo de fazer algumas coisas e ainda me senti um pouco viva socialmente.

Isso pega demais. Sério, eu sinto muita saudade de quem eu era antes de me tornar mãe, mesmo eu não lembrando mais muito bem. É bem louco, e difícil explicar, mas por mais que você não se imagina mais sem seu bebê, você tem saudade da sua vida de antes.

Ao mesmo tempo meu relacionamento com Clara e o dela com o mundo tem ficado cada vez ais prazeroso! Ela interage mais e tem muito mais consciência de sus ações, do mundo e das pessoas ao redor.

Dizem por aí que ela é “adiantada” porque com 3 meses e meio já é uma contorcionista de primeira: pega o pezinho, pões na boca, vira de bruços e eu toda orgulhosa me derreto inteira.

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Aplaudo e vibro com cada conquista, mas a melancolia já bate: como passa rápido! Cadê meu bebezico recém-nascido?

Viu como a maternidade é contraditória? 😉

 

Clara #3meses

Minha intenção do Blog, além de dividir com vocês algumas experiências que eu acho bacana e senti falta quando dei aquela Googlada, era fazer um “diário” com a  evolução da Clara pra eu sempre lembrar (e quem sabe um dia ela ler).

Pois bem, passaram 3 meses e eu não consegui. A vida seguiu tão corrida nesse tempo entre choros e mamadas que eu nem a vi passar.

Mas cá estou.

Clara completou 3 meses no último dia 29 e as coisas estão ficando um pouco menos árduas por aqui. Ainda é difícil ficar sozinha com ela por muito tempo porque ela ainda não se distrai com algo por mais de alguns minutos, mas estamos evoluindo… #PraFrenteEAvante

Dizem que depois do salto de desenvolvimento dos 3 meses “vira a chave” e tudo melhora. O sono começa a se regular, porque até então eles não produzem o tal hormônio que distingue dia e noite; as mamadas ficam mais efetivas; a criança não acha mais que ela e mãe são a mesma pessoa (sim, isso existe. Leia mais sobre exterogestação aqui);  e ela ainda consegue prestar atenção em algo por mais tempo, como um brinquedo.

E sim, ando percebendo que sim, tudo isso anda acontecendo, mesmo que lentamente (lembrar sempre do mantra: um dia de cada vez!).

Faz uns 20 dias que ela está aficcionada na mãozinha dela. Passa horas olhando e cada dia faz uma coisa diferente com elas, como colocar na boca, chupar os dedinhos, passar no rosto…

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É muito legal ver a evolução deles assim de pertinho e ficar orgulhosa com cada nova conquista.

Ao mesmo tempo já tenho saudade dela pequenina. Sim, eu sei que ela ainda é, mas já estou sentindo saudade do que passou e também do que ainda não vivi.

Por isso, quero aproveitar ao máximo cada momento, pois tenho certeza que sentirei muitaaaa saudade da Clara desse tamanico. Dela me querendo a todo momento, como eu consigo dar a paz que ela deseja, como ela adormece nos meus braços e acha o lugar mais seguro e gostoso do mundo…

Um beijo :*

Vamos falar sobre puerpério

Antes da Clara nascer eu nem sabia que existia essa palavra: puerpério. E daí entre fraldas, mamadas, choros, e sono, muito sono, ela apareceu.

Pra quem não sabe, puerpério é o período que a mulher tem para se recompor da gestação, tanto em termos hormonais quanto corporais, e ele se divide em três fases:

  • Imediato: ocorre a partir do momento da saída da placenta até duas horas depois do parto.
  • Mediato: acontece de duas horas até cerca de 10 dias depois do parto.
  • Tardio: ocorre a partir dos 10 dias até o final da oitava semana ou os ciclos menstruais voltarem.

Muita gente diz que ele acaba em até 42 dias, mas pelos depoimentos que leio em grupos de puérperas, experiência de amigas e pelo que estou passando, tenho certeza que ele se estende na maioria dos casos.

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A mistura de sentimentos é tão bizarra que você está no momento mais feliz da sua vida, com seu tão esperado e saudável (na maioria dos casos) bebê nos braços e sente uma tristeza enorme. Só quem passa por isso sabe que não é exagero!

A angústia chega com tudo mesmo, acabando com seu humor, sua estabilidade, e fazendo você derrubar lágrimas sem saber realmente o porquê.

Sério, se alguém te pergunta você não sabe explicar. Só sabe quem sente ou sentiu.

Aqui, eu percebo que a melancolia piora quando estou em privação do sono nível hard, com palpites alheios em relação à bebê, me sinto “abandonada”, e quando me frustro com a amamentação (isso é assunto pra outro post).

O que me tranquiliza muito é saber que isso – também – passa.  E que não a única, afinal, cerca de 80% das recém-mães experimentam algum sentimento negativo ou alteração de humor após o parto. Ah, e claro, olhar pra minha pequena e sentir um amor que nunca senti antes. Pleno, sem cobranças, sem vaidade, sem querer nada em troca…

Além disso, conversar com o parceiro e com a família, e explicar sobre o puerpério e como ele “funciona” ajuda muitoooo e te exime de alguns “exageros” que você venha cometer, seja de choro, de grosseria, de falta de paciência, de medo…

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Participar de grupos de mães, conversar com amigas que estão passando ou já passaram por isso, trocar relatos e experiências também é muito válido, afinal, nada melhor do que num momento “louco” como esse saber que isso não acontece só com você e é mais comum do que imaginamos.

Maneirar com as cobranças em si próprio também ajuda, seja em relação ao corpo, ao peso, a criação dos pequenos, a nova rotina, a volta ao trabalho, e por aí vai.

E boa sorte pra gente!

:*

PS: Tá precisando falar sobre? Escreve pra mim: brogiatto@gmail.com